O debate em torno do saneamento básico no Brasil ganhou outra dimensão após a atualização do marco legal, e Márcio Velho da Silva, gestor e consultor técnico, situa a gestão de riscos no centro dessa transformação. A Lei 14.026/2020 fixou metas de universalização que preveem o atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto até o fim de 2033. Cumprir esses objetivos exige ampliar a infraestrutura ambiental sem perder de vista a confiabilidade dos sistemas já existentes, muitos deles envelhecidos e operando no limite da capacidade.
Obras, contratos e o risco da execução
A expansão acelerada das redes de água e esgoto envolve obras de grande porte, frequentemente realizadas em áreas urbanas densas, com interferências em vias, redes de energia e comunicação. Atrasos em licenciamento, variações no custo de insumos, falhas de projeto e dificuldades de mobilização de mão de obra especializada figuram entre os fatores que ameaçam cronogramas. De acordo com Márcio Velho da Silva, mapear esses riscos ainda na fase de planejamento permite estabelecer planos de contingência realistas, em vez de reagir a cada imprevisto com improvisos onerosos.
Além disso, os contratos firmados após o novo marco passaram a prever metas de desempenho e mecanismos de fiscalização mais rigorosos, o que aumenta a responsabilidade dos operadores sobre resultados mensuráveis. Indicadores de cobertura, perdas na distribuição, continuidade do abastecimento e qualidade do efluente tratado passam a compor a rotina de acompanhamento. Uma matriz de riscos bem construída, associada a esses indicadores, ajuda a priorizar investimentos e a justificar decisões perante agências reguladoras e municípios atendidos. A transparência sobre esses dados também aproxima os usuários, que passam a acompanhar a evolução do serviço.

Continuidade do serviço e falhas silenciosas
No dia a dia das estações e redes, os riscos assumem formas menos visíveis do que nas grandes obras. Rompimentos de adutoras, falhas em bombas de recalque, interrupções no fornecimento de energia e entupimentos em coletores podem comprometer o atendimento a bairros inteiros em poucas horas. Eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes, acrescentam pressão sobre sistemas de drenagem e estações de tratamento, exigindo planos de resposta testados e equipes preparadas para agir com rapidez. A drenagem urbana, muitas vezes tratada à parte, integra esse mesmo conjunto de vulnerabilidades.
Na ótica de Márcio Velho da Silva, a manutenção preventiva de ativos críticos, a redundância em pontos estratégicos e o monitoramento remoto de pressão e vazão figuram entre as medidas que reduzem a probabilidade e o impacto dessas ocorrências. Sistemas de supervisão e aquisição de dados permitem identificar anomalias antes que resultem em interrupção, enquanto o cadastro técnico atualizado das redes acelera a localização de falhas. A comunicação ágil com a população afetada completa o ciclo, reduzindo transtornos e preservando a confiança no serviço.
O que a gestão de riscos devolve à sociedade?
Os efeitos de um saneamento confiável ultrapassam a esfera operacional. A Organização Mundial da Saúde associa o acesso à água segura e ao esgotamento adequado à redução de doenças de veiculação hídrica, como as diarreias, que atingem sobretudo crianças. Quando um sistema falha com frequência, a população recorre a fontes alternativas nem sempre seguras, e os ganhos sanitários conquistados com a expansão da infraestrutura podem se perder rapidamente, comprometendo anos de investimento público e privado. A estabilidade do abastecimento, portanto, é também uma questão de saúde pública.
Ao interpretar a relação entre operação e desenvolvimento sustentável, Márcio Velho da Silva realça que a gestão de riscos também protege recursos hídricos, evita a contaminação de rios e reduz desperdícios de água tratada e energia. Operadores que tratam o risco de forma estruturada tendem a atravessar crises com menos danos e a planejar investimentos com maior previsibilidade. Para as cidades, o resultado aparece em serviços estáveis, custos mais controlados e ambientes urbanos mais saudáveis para as próximas gerações.
