Governo promete avançar com o fim da cobrança federal, mas setor produtivo alerta para concorrência com empresas instaladas em Manaus.
A disputa em torno da chamada taxa das blusinhas ganhou força em Brasília e pode ter reflexos importantes para consumidores e empresas de Manaus. A Medida Provisória 1.357/2026 permite zerar temporariamente o Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50, enquanto a cobrança de 20% criada em 2024 permanece suspensa até que o Congresso decida o futuro da regra. O assunto voltou ao centro da agenda política nesta semana, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que pretende anunciar o fim definitivo da cobrança em 26 de agosto. A comissão mista responsável por analisar a MP, porém, só deverá definir presidente e relator em 1º de setembro, deixando o tema cercado de incertezas. (Folha de S.Paulo)
Para o consumidor manauara, a dúvida parece simples: comprar pela internet ficará mais barato? Mas a discussão é maior. A decisão também envolve concorrência, empregos, arrecadação, comércio local e os interesses da Zona Franca de Manaus, que reúne uma estrutura industrial estratégica para a economia do Amazonas.
Por que o fim da taxa das blusinhas interessa a quem mora em Manaus
A chamada taxa das blusinhas surgiu em 2024 com a cobrança de 20% de Imposto de Importação sobre remessas internacionais de até US$ 50. Em maio de 2026, a Medida Provisória 1.357 passou a permitir que o governo reduza essa alíquota a zero, fazendo com que a cobrança federal deixasse de pesar sobre essas compras enquanto a MP estiver vigente. A medida, contudo, precisa ser confirmada pelo Congresso para se transformar em uma regra permanente. (Câmara dos Deputados)
Essa mudança interessa diretamente ao consumidor porque compras em plataformas estrangeiras podem ter preço final menor quando deixam de sofrer a incidência do imposto federal. Isso é especialmente relevante em um momento no qual famílias procuram alternativas para reduzir gastos com roupas, acessórios, eletrônicos e outros produtos vendidos pela internet. Mas há um detalhe importante para quem vive em Manaus: zerar o Imposto de Importação não significa eliminar todos os tributos que podem incidir sobre uma compra internacional. O ICMS estadual continua sendo aplicado conforme as regras dos estados, de modo que o preço final depende também da tributação estadual, do valor do produto, do frete e de outras condições da operação.
A questão ganha uma dimensão regional porque o comércio eletrônico internacional concorre diretamente com empresas brasileiras que vendem produtos semelhantes. Em Manaus, essa concorrência ocorre em um mercado que já possui características particulares devido à distância dos grandes centros consumidores e ao custo logístico. Para o pequeno comerciante manauara, competir com uma mercadoria importada diretamente pelo consumidor pode ser diferente de enfrentar outro estabelecimento local, especialmente quando a compra estrangeira chega com preços muito baixos. Por isso, o debate tributário também é uma discussão sobre o futuro do comércio e dos empregos na capital amazonense.
O que a mudança pode significar para a Zona Franca de Manaus
A preocupação com a concorrência não se limita ao comércio varejista. Entidades empresariais e representantes do setor produtivo têm discutido os efeitos da política de importação sobre a indústria nacional, enquanto o setor ligado à Zona Franca de Manaus acompanha o debate porque a entrada facilitada de produtos estrangeiros pode alterar as condições de competição para fabricantes instalados no país. Reportagens recentes apontaram que empresas da Zona Franca estão entre os setores atentos ao impasse envolvendo a MP que suspendeu a cobrança. (Folha de S.Paulo)
Esse ponto é importante porque a Zona Franca não funciona apenas como um conjunto de fábricas dentro de Manaus. O Polo Industrial reúne cadeias produtivas, fornecedores, trabalhadores e empresas de diferentes tamanhos, e suas atividades possuem impacto sobre a arrecadação e a geração de renda do Amazonas. A própria Suframa informou neste mês que 25 novos projetos industriais e de serviços foram aprovados, com previsão de R$ 335,3 milhões em investimentos e geração de 859 empregos em até três anos. Poucos dias depois, a autarquia também destacou uma parceria com a Ufam para ampliar a capacitação profissional destinada às demandas do Polo Industrial. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso mostra por que o debate sobre compras internacionais precisa ser analisado além do preço de uma encomenda. Para o consumidor, uma tributação menor pode significar economia imediata; para a indústria e o comércio brasileiros, entretanto, uma diferença tributária muito grande pode alterar decisões de produção, investimento e contratação. O desafio para o governo federal é encontrar uma política que permita acesso a produtos mais baratos sem criar uma desvantagem considerada excessiva para quem produz, emprega e paga tributos no Brasil.
No caso do Amazonas, essa discussão é ainda mais sensível porque a economia de Manaus depende de um modelo industrial que utiliza incentivos fiscais para compensar parte das dificuldades logísticas e da distância dos principais mercados consumidores. A Suframa informa que administra mecanismos relacionados à importação e ao ingresso de mercadorias dentro da área incentivada, enquanto acompanha a modernização e a adaptação do Polo Industrial às mudanças econômicas e tributárias. (Serviços e Informações do Brasil)
O que pode acontecer com os preços e quando o Congresso vai decidir
O futuro da taxa das blusinhas depende agora de uma disputa política no Congresso. A comissão mista que analisará a MP 1.357/2026 foi criada, mas a definição de presidente e relator ficou para 1º de setembro. O prazo é relevante porque a medida provisória precisa ser aprovada dentro do período constitucional de vigência para continuar produzindo seus efeitos, e informações oficiais do Senado registram que, sem aprovação até 8 de setembro, a cobrança poderá voltar. (Portal da Câmara dos Deputados)
A situação ganhou ainda mais peso político depois que Lula declarou estar convencido de que os presidentes da Câmara e do Senado apoiarão o fim da cobrança. O governo argumenta que a retirada do imposto beneficia consumidores, enquanto setores empresariais defendem mecanismos capazes de preservar condições de competição para empresas brasileiras. A discussão, portanto, não é simplesmente entre “imposto alto” e “imposto baixo”: envolve quem absorve o custo, quem ganha competitividade e quais efeitos a mudança terá sobre arrecadação, comércio e indústria. (Folha de S.Paulo)
Para quem compra pela internet em Manaus, a principal orientação é não considerar que todo produto de até US$ 50 ficará automaticamente livre de impostos. A eventual manutenção da alíquota federal em zero não elimina o ICMS nem outros custos envolvidos na importação, e o preço anunciado pela plataforma pode não representar o valor final pago pelo consumidor. Além disso, promoções, frete e variação cambial continuam influenciando o resultado da compra.
A decisão também terá importância para o Amazonas porque a política de comércio exterior pode afetar o equilíbrio entre consumo e produção. Se o Congresso confirmar o fim da taxa, consumidores poderão encontrar oportunidades de compra mais baratas, mas empresas locais e a indústria precisarão lidar com uma concorrência internacional mais intensa. Se a cobrança voltar, o consumidor poderá pagar mais, enquanto comerciantes e fabricantes nacionais terão uma proteção tributária maior. Em Manaus, onde Zona Franca, comércio, empregos e logística estão diretamente conectados, o resultado dessa disputa será acompanhado não apenas pelos consumidores, mas por toda a economia regional.
