Taiza Tosatt Eleoterio ilustra como identificar o papel de “pacificador” aprendido na infância em adultos

Por Nina Karelina 7 Min de leitura

Muitos adultos carregam, sem perceber, o papel de pacificador que assumiram na infância, e Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista, detalha que ele costuma surgir em famílias marcadas por conflitos constantes entre os adultos responsáveis. Assumido como forma de sobrevivência emocional, esse papel ensina a criança a cuidar do clima da casa antes de cuidar das próprias necessidades. Na vida adulta, ele segue influenciando escolhas afetivas, limites e a dificuldade de expressar o que se sente. Perceber esse padrão não significa enxergar um defeito, mas compreender uma história e abrir espaço para novas formas de se relacionar.

Como esse papel se forma ainda na infância?

Em famílias onde discussões, tensões ou episódios de violência são frequentes, é comum que uma das crianças assuma, de forma espontânea, a função de tentar amenizar conflitos entre os adultos, seja por meio de comportamentos exemplares, seja tentando distrair ou consolar quem está em sofrimento. Esse papel costuma surgir como uma tentativa infantil de restaurar a sensação de segurança dentro de casa.

Segundo Taiza Tosatt Eleoterio, essa criança aprende, muito precocemente, que sua função dentro da família é cuidar do bem-estar emocional dos outros, muitas vezes em detrimento da própria necessidade de ser cuidada e protegida como uma criança deveria ser.

Como esse padrão se manifesta na vida adulta?

Na vida adulta, esse padrão costuma se traduzir em uma dificuldade significativa de expressar as próprias necessidades dentro de relações afetivas, priorizando sistematicamente o bem-estar do parceiro, mesmo em situações em que isso implica abrir mão de limites pessoais importantes.

Esse tipo de comportamento também pode se manifestar por meio de uma tendência a evitar conflitos a qualquer custo, cedendo em discussões mesmo quando a própria posição seria legítima, apenas para preservar a aparência de harmonia dentro da relação.

A relação entre esse padrão e a escolha de parceiros

Nessa direção, adultos que carregam esse papel aprendido na infância tendem, muitas vezes sem perceber, a se envolver em relacionamentos com parceiros mais instáveis emocionalmente, repetindo, de certa forma, a dinâmica familiar vivida na infância, na qual a estabilidade emocional do ambiente dependia do esforço constante de uma pessoa específica.

Taiza Tosatt Eleoterio destaca que essa repetição não acontece por escolha consciente, mas sim porque o papel de “pacificador” se tornou, ao longo dos anos, uma forma familiar e reconhecível de se relacionar afetivamente com outras pessoas.

Os custos emocionais de carregar esse papel

Esse padrão tem um custo emocional significativo para quem o carrega. A pessoa tende a desenvolver dificuldade em reconhecer e validar as próprias emoções, já que, desde muito jovem, aprendeu a priorizar as emoções dos outros como forma de manter a estabilidade do ambiente ao redor.

Com o tempo, essa priorização constante do bem-estar alheio pode gerar um esgotamento emocional silencioso, muitas vezes confundido com simples cansaço ou estresse do dia a dia, mas que, na verdade, reflete anos de desatenção às próprias necessidades emocionais.

Sinais de que esse padrão pode estar presente

Alguns sinais merecem atenção. Um deles é a dificuldade recorrente em dizer “não” ou em expressar desacordo dentro de relações importantes, como se discordar pudesse colocar o vínculo em risco. Outro é a sensação de responsabilidade excessiva pelo humor e pelo bem-estar emocional das outras pessoas, a ponto de a pessoa se sentir culpada quando alguém ao redor está insatisfeito.

Também é comum a tendência de evitar conflitos, mesmo quando a própria posição é legítima e justificada, e o desconforto significativo diante de situações de tensão, inclusive quando elas não envolvem diretamente a própria pessoa. Isoladamente, cada um desses comportamentos pode fazer parte da vida de qualquer um, mas, quando aparecem juntos e de forma repetida, podem indicar que o papel de pacificador aprendido na infância continua ativo.

A diferença entre cuidar e se anular

É importante destacar que cuidar das pessoas ao redor não é, em si, um problema. A diferença está, principalmente, no equilíbrio entre cuidar do outro e cuidar de si mesma. Em relações saudáveis, esse cuidado acontece de forma recíproca, com espaço para que ambas as partes expressem necessidades, divirjam e, eventualmente, entrem em conflito sem que isso represente uma ameaça à relação como um todo.

Já quando o papel de pacificadora se torna o eixo central da própria identidade dentro de uma relação, a pessoa tende a perder de vista os próprios limites, acreditando, muitas vezes, que seu valor está diretamente ligado à sua capacidade de evitar conflitos e manter todos ao redor emocionalmente confortáveis, independentemente do próprio custo pessoal.

O papel da terapia na elaboração desse padrão

Buscar acompanhamento psicológico especializado costuma ser particularmente útil para quem reconhece esse padrão em si mesma, já que o processo terapêutico oferece um espaço seguro para compreender a origem desse comportamento e, gradualmente, experimentar novas formas de se relacionar, nas quais as próprias necessidades também encontrem espaço de expressão e validação.

Esse processo, embora não aconteça de forma rápida, tende a abrir caminho para relações mais equilibradas, nas quais o cuidado com o outro não exija, como condição, o silenciamento constante das próprias emoções e necessidades.

Como começar a reconstruir esse padrão?

Taiza Tosatt Eleoterio orienta que o primeiro passo para transformar esse padrão é reconhecer sua origem, compreendendo que ele foi construído como uma estratégia de sobrevivência emocional durante a infância, e não como uma característica fixa e definitiva da própria personalidade. A partir desse reconhecimento, torna-se possível começar a praticar, aos poucos, a expressão de necessidades e limites próprios dentro das relações atuais, sem a pressão constante de precisar manter a paz a qualquer custo emocional pessoal.

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