Sensores do MIT e da Ufam monitoram o calor em Manaus: como a tecnologia pode mudar o planejamento da cidade

Por Nina Karelina 10 Min de leitura

Pesquisa internacional usa sensores espalhados pela capital para identificar ilhas de calor e testar soluções arquitetônicas adaptadas ao clima amazônico.

Manaus passou a integrar uma pesquisa internacional que usa tecnologia para responder a uma pergunta cada vez mais importante para quem vive na capital: quais áreas da cidade realmente sofrem mais com o calor e o que pode ser feito para reduzir esse impacto? Sensores instalados em diferentes pontos das zonas Oeste, Sul, Leste e Centro-Sul estão coletando informações sobre as condições térmicas da cidade em um estudo desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e pela Prefeitura de Manaus. A iniciativa ganhou nova etapa nesta semana e pretende transformar dados sobre temperatura e características urbanas em informações capazes de orientar futuras decisões. O trabalho também analisa soluções arquitetônicas, como sistemas de dupla cobertura, que podem melhorar o conforto térmico dentro das edificações e reduzir o consumo de energia. Para o manauara, a tecnologia pode ajudar a explicar por que determinados bairros parecem muito mais quentes que outros.

Fonte: Prefeitura de Manaus e Ufam.

Como os sensores estão medindo o calor em diferentes áreas de Manaus

A pesquisa utiliza sensores instalados em pontos estratégicos de Manaus para acompanhar como as condições térmicas variam dentro da própria cidade. Um dos locais escolhidos é um edifício situado no Parque Mosaico, no Tarumã, zona Oeste, além da sede do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb) e outros pontos que fazem parte da rede de monitoramento. A escolha de diferentes regiões é importante porque o calor urbano não se distribui de maneira uniforme. Áreas com maior concentração de concreto e asfalto, pouca vegetação, diferentes padrões de construção e menor circulação de ar podem apresentar condições térmicas distintas de regiões com maior cobertura vegetal.

O estudo é conduzido pela arquiteta equatoriana Sylvia Jiménez Riofrío, doutoranda do MIT, e já possui mais de 14 meses de desenvolvimento em Manaus. A pesquisa conta com a participação do Grupo de Pesquisa Arquitetura Moderna na Amazônia, da Ufam, e busca desenvolver um modelo físico-matemático capaz de avaliar estratégias para diminuir o calor urbano. Segundo a Prefeitura, os dados serão usados para compreender como os fatores urbanos influenciam a formação das chamadas ilhas de calor e para avaliar soluções arquitetônicas e urbanísticas que possam melhorar o conforto ambiental.

A tecnologia empregada no levantamento é relevante justamente porque permite sair de uma percepção subjetiva do calor e produzir dados comparáveis entre diferentes pontos da capital. O morador pode sentir que determinada rua, terminal, conjunto habitacional ou área comercial é mais quente, mas a pesquisa procura identificar quais características urbanas explicam essa diferença. A partir desse conhecimento, gestores e pesquisadores podem avaliar intervenções de forma mais precisa, em vez de depender apenas de observações pontuais.

Por que o estudo pode mudar casas, prédios e ruas de Manaus

Um dos focos da pesquisa é o chamado telhado duplo, solução arquitetônica tradicionalmente utilizada em regiões tropicais e que está sendo analisada como estratégia de adaptação ao calor. A ideia é compreender como diferentes sistemas de cobertura podem interferir na temperatura dos ambientes e no desempenho térmico das edificações. Em uma cidade amazônica, onde o calor e a umidade fazem parte da rotina durante boa parte do ano, soluções capazes de diminuir a temperatura interna podem ter impacto direto no conforto das famílias e no uso de equipamentos de climatização.

O tema também possui relação com o consumo de energia. Quando uma construção consegue manter condições térmicas mais favoráveis por meios passivos, pode haver menor necessidade de utilização intensa de aparelhos de ar-condicionado e outros equipamentos de refrigeração. Isso não significa que uma única solução arquitetônica resolverá o problema do calor em Manaus, mas os dados produzidos pela pesquisa podem ajudar a identificar quais características de telhados, fachadas, materiais, arborização e ocupação do terreno apresentam melhores resultados. A Ufam destaca que o estudo poderá subsidiar futuras atualizações da legislação urbanística, especialmente em temas relacionados ao conforto térmico, desempenho das edificações e consumo de energia.

A pesquisa também pode interessar diretamente ao mercado imobiliário, arquitetos, engenheiros e construtores. Se os resultados demonstrarem que determinadas técnicas melhoram significativamente as condições térmicas, esses conhecimentos podem influenciar projetos residenciais, comerciais e públicos. Em vez de pensar apenas na aparência ou no aproveitamento do terreno, o planejamento urbano poderá incorporar com maior precisão a questão de como cada construção contribui para o aquecimento ou resfriamento do entorno.

A escolha de Manaus como laboratório internacional tem ainda uma importância maior para a Amazônia. O estudo poderá gerar conhecimento aplicável a outras cidades tropicais que enfrentam crescimento urbano, mudanças climáticas e aumento da demanda por energia. Dessa forma, os sensores instalados na capital não servem apenas para medir o calor de hoje, mas para construir uma base científica que pode ajudar a planejar cidades mais adaptadas às condições climáticas futuras.

O que a tecnologia pode revelar sobre o futuro de Manaus

A principal contribuição esperada é transformar os dados coletados em ferramentas de planejamento. A Prefeitura de Manaus afirma que os resultados poderão orientar futuras diretrizes urbanísticas e decisões relacionadas ao uso do solo, conforto térmico e qualidade dos espaços urbanos. Isso significa que informações produzidas por sensores podem, no futuro, ajudar a responder perguntas como onde aumentar a arborização, quais soluções construtivas devem ser estimuladas e quais características urbanas precisam ser revistas para reduzir a concentração de calor.

Essa possibilidade ganha importância diante das mudanças climáticas e da expansão das cidades. Manaus possui características particulares, como alta umidade, intensa radiação solar, grande extensão territorial e diferentes padrões de ocupação urbana. A combinação desses fatores torna insuficiente adotar soluções desenvolvidas para cidades de clima completamente diferente. O estudo do MIT e da Ufam procura justamente produzir conhecimento adaptado à realidade amazônica, utilizando a própria capital como referência.

Para o morador, os efeitos podem aparecer de maneira gradual. Uma pesquisa científica não significa que ruas ou casas serão modificadas imediatamente, mas pode fornecer evidências para orientar políticas públicas e projetos privados nos próximos anos. Se os dados mostrarem que determinadas regiões acumulam mais calor, por exemplo, o poder público poderá considerar essas informações em intervenções urbanas, enquanto novos projetos poderão incorporar estratégias de ventilação, sombreamento e cobertura mais adequadas ao clima local.

A iniciativa também reforça o papel da tecnologia produzida em parceria com universidades. A Ufam participa da pesquisa não apenas como instituição acadêmica, mas como ponte entre conhecimento científico e problemas concretos da cidade. Para Manaus, esse tipo de cooperação pode ajudar a transformar pesquisa em soluções para habitação, planejamento urbano, energia e adaptação climática. O resultado mais importante, portanto, não será apenas descobrir onde faz mais calor, mas entender por que isso acontece e como a cidade pode se preparar melhor.

O monitoramento do calor urbano coloca Manaus no centro de uma discussão que tende a ganhar importância nas próximas décadas. A utilização de sensores, modelos matemáticos e pesquisa acadêmica permite que decisões sobre a cidade sejam tomadas com uma base de evidências mais precisa. Para o manauara, isso pode significar construções mais confortáveis, espaços urbanos melhor planejados e políticas públicas capazes de considerar as diferenças térmicas entre os bairros. Para a Amazônia, a experiência pode servir como referência para outras cidades que enfrentam desafios semelhantes. A tecnologia, neste caso, não aparece apenas como novidade, mas como ferramenta para compreender o território e preparar Manaus para um clima cada vez mais desafiador.

Fontes: Prefeitura de Manaus, Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb) e Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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